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15/02/2007
Supercordas
Seres Verdes ao Redor

(Trombador Discos, 2006)



Rock clorofilado exalta o bucolismo e a fotossíntese

Os cariocas do Supercordas são das bandas mais criativas a surgirem na cena independente nacional recente. Misturando basicamente rock psicodélico com elementos de música brasileira em canções bastante acessíveis, ganharam notoriedade com dois excelentes EPs, A Pior das Alergias, de 2003, e Satélites no Bar, de 2005. Ao final de 2006, lançaram seu primeiro álbum cheio, Seres Verdes Ao Redor: Música para Samambaias, Animais Rastejantes e Anfíbios Marcianos, pelo selo Trombador Discos.

E esse primeiro disco vem cheio de propriedade. O nome, a capa, a decoração do palco nos shows da banda e, claro, principalmente o som agridoce das músicas, formam um álbum conceitual sobre psicodelia rural, com violas, harmonias, efeitos de theremim e letras sobre sapos orquestrais, rios de leite e sonos de maracujá. E o fazem com maestria, pois um projeto desses poderia muito facilmente cair no ridículo, mas passa longe disso.

Como todo bom disco que se preze, sua primeira seqüência de músicas é forte. Abrindo com E o Sol Brilhou Sobre o Verde, com harmonias vocais de referência direta aos Beach Boys, e instrumental de violões e barulhos de theremim por trás, que interligam a segunda música, A Charneca, cujo bom refrão fala sobre uma rã que morre esmagada no asfalto. Logo após, as duas melhores músicas do disco - Ruradélica e 3000 Folhas - trazem o lado mais acessível do grupo. Ruradélica tem um clima alegre, ótima melodia, e poderia fazer sucesso no rádio - se este abrisse espaço para coisas diferentes dos jabás sem sal que dominam o dial. '3000 Folhas' tem andamento mais lento e boas guitarras distorcidas.

O lado experimental do Supercordas também se mostra presente, nos números instrumentais Mofo, Musgo e Mangue, onde dedilhados acústicos se misturam a efeitos de gravação de todo tipo.

Outras boas canções permeiam o disco, como Sobre o Frio, Sobre o Calor, e Frog Rock, que traz vocais de sotaque caipira. Ao final, a ótima Fotossíntese também é um dos pontos altos, com todos da banda cantando em coro sobre como é bom brilhar pra se alimentar de sol.

Versos como 'com seres verdes ao redor / eu já me sinto bem melhor', 'é tão bão ficar aqui / balançando e vendo o céu cair / nas telha do jardim', e 'o verde é que dá o tom', presentes no disco todo, podem ser nada além de meros versos bucólicos. Mas também demonstram uma óbvia insatisfação com a vida urbana, como da capital do Rio de Janeiro, onde a banda vive. Insatisfação essa cada vez mais presente, de diferentes formas, em letras da música nacional. Mas não nos atrevamos a traçar teorias literárias sobre o assunto. Basta dizer que o disco é muito bom, e passa a idéia de relaxar deitado na grama, ligeiramente chapado, observando a natureza.

Wilson Farina
wilsera@hotmail.com

 

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