
16/05/2007
Dolores O’Riordan Are You Listening?
(Sequel;2007)
A voz feminina dos anos 90 em projeto solo sério e provocador
Os anos 90 nunca foram o que pareceram. Por trás de cada embuste chauvinista, de cada tendência pré-fabricada, por trás do grunge, da explosão da música eletrônica e até do britpop, havia o mesmo espírito carente e deslocado que permeava os oitenta - o espírito dos Smiths, do Jesus and Mary Chain, que sobreviviam (ou não) lado a lado de megalomaníacos como George Michael, Madonna e o esquizóide Michael Jackson. Na década passada, a sensação continuava a mesma, os excessos apenas se tornaram menos explícitos e ainda mais opressivos. Para cada Alanis Morissette usando de um falso feminismo tolo para seduzir meninas que vivem de romances, uma Dolores O’Riordan, líder do Cranberries. Ou você não concorda que Dolores é a voz feminina dos anos 90? Lembrou de “Linger”, “Salvation” ou “Dreams”? Se você tem mais de 20 anos, sabe do que eu estou falando.
Então é agora que você percebe que envelheceu. Porque se o disco solo de uma das (já?) veteranas da década que passou te emociona mais do que as estréias das talentosas Lily Allen e Amy Winehouse, as novas queridinhas da crítica, é porque algo está completamente errado. Porque Dolores e o Cranberries sempre pareceram mais sérios, quase uma versão de saias de Bono, antes desse abdicar da música para tornar-se a Madre Teresa do rock. Suas músicas possuíam sonoridades simples e as letras versavam sobre assuntos de abordagem “difícil”, como a relação com os pais (“Ode to my Family”) ou protestos contra a violência na Irlanda do Norte (“Zombie”). Suas canções de amor sempre buscaram algo além de um pé na bunda do namorado ou elegias dionisíacas ao álcool. A já citada “Linger”, por exemplo, uma das mais belas canções de amor dos últimos tempos, tem versos sinceros como “agora eu estou envolvida demais/você sabe que eu sou uma tola por você/você me tem entre seus dedos”. Música sobre amor, não algo parecido.
Esse “Are You Listening?” não é o auge da criatividade de Dolores, agora em disco solo após romper com a banda em 2003. Mas não deixa de ser uma surpresa agradável. O primeiro single, “Ordinary Day”, já avisa: “a vida é mais complexa do que parece”. “When You Were Young” impressiona pela sinceridade (“as coisas parecem melhores/quando nós somos jovens”), enquanto “October” é raivosa (“você fica no meu caminho/sem nada para dizer”).
Dolores se mostra ainda menos sutil em “Loser” (“estou cansada de pessoas como você/você se acha esperto, mas não tem a menor idéia”), a que mais lembra sua antiga banda. Na mesma canção, uma das melhores do disco, Dolores afirma preferir seguir sem nada a se juntar aos perdedores, e conclama: “morra, perdedor/morra!”. A cantora mostra ressentimento com o descaso de sua e dessa geração, e muitas vezes tenho a impressão que ela é o correspondente feminino mais próximo de Morrissey, tanto pela sinceridade quanto pela coragem em expôr sentimentos. Nunca, porém, de forma tendenciosa, com o intuito de provocar compaixão, e sim colocar pra fora o que incomoda, o que machuca. Segundo Alexis Carrol, “o homem não pode fazer-se sem sofrer, pois é ao mesmo tempo o mármore e o escultor”. E aqui valoriza-se o trabalho da escultora, recuperando sentimentos que você pensou estarem perdidos em algum lugar, talvez lá no meio da década passada.
Não que o disco pareça datado, muito pelo contrário. Os arranjos climáticos do aclamado produtor Youth, que já trabalhou com U2 e Paul McCartney, conduzem de forma soberba as composições de “Are You Listening?”. É um disco adulto, se é essa denominação serve para um disco. E despretensioso também, assim como o são os bons álbuns solo. Dolores parece querer falar de si para si; ela está envelhecendo e, se se aceitar esse fato em suas letras, então você está envelhecendo com ela, para algo além das polêmicas supérfluas de tantas outras cantoras por aí. Tão bom que periga ser o melhor disco feminino do ano.
Daniel Fariadel_yorke@yahoo.com.br

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