27/09/2007
Os Telepatas
Bandeirante
(Trombador Discos; 2007)
Psicodelia na medida
Os Telepatas dedicaram três anos de pesquisa estética para a produção de Bandeirante, seu primeiro álbum. Logo nas primeiras músicas do repertório, a conclusão é a de que foi um período de tempo bem empregado. Misturando elementos antigos e novos, a banda consegue um resultado diferente do que se tem ouvido por aí: canções com a capacidade de transmitir calor em arranjos inusitados.
Rafael “Stan” Molina divide os vocais, as guitarras e os violões com Fabiano “Fabs” Grassi, deixando a Daniel “Rica” Monteiro o baixo e a Thiago “Lirou” Serra a bateria. O quarteto paulistano vem conquistando seguidores com sua volta aos acordes e timbres dos anos 70 brasileiros, misturando Guilherme Arantes e Walter Franco, com toques e retoques contemporâneos, de nuances que lembram Grandaddy e Wilco. Impossível não comparar também com Los Hermanos. Porém, os meninos telepatas têm algo diferente: músicas mais dançantes com maiores experimentações nas peripécias psicodélicas.
Aliás, psicodelia é o que não falta em Bandeirante, que tem efeitos usados nas horas certas. O tom geral é alegre, embora os temas não: dor de amor, querer e não poder, razão versus emoção. Mas é com essa ambigüidade que o grupo alcança uma liberdade criativa que soa genuína no final, sem preocupações com aparências de terem sido “colonizados” por modelos do rock estrangeiro. As influências de space rock e country alternativo americano são evidentes, mas a tonalidade brasileira está presente no álbum todo.
À Cor da Manhã começa calma mas surpreende na evolução. O clima bossa nova de Minhas Dúvidas se desenrola em molduras mais atuais. Cérebro Robô parece conseguir levitar quem a escuta. O Medo é Amigo Meu é velha conhecida do público telepata e talvez a sua preferida: o vocal casa perfeitamente com os acordes dos violões.
A pesquisa estética, no entanto, não deixou escapar algumas falhas. Maria Clara é a mais fraca do álbum, talvez pelo vocal um tanto desafinado, talvez pelo piano que não se encaixa na música. Grito, ao contrário do que o nome sugere, tem sonoridade tranqüila e despreocupada, chega a evoluir com os acordes do violão, mas a flauta nos minutos finais faz a canção se perder.
Os únicos pecados de Bandeirante são os sentimentos exagerados e sua tradução numa poesia saturada demais, talvez até cafona. Em algumas faixas, ainda, o vocal irrita por ser insosso e os laralás por serem tão insistentes. Correm o risco de cair no brega e no repetitivo.
Ainda assim, a aventura bandeirante merece a tentativa: a nostalgia setentista d’Os Telepatas deu certo no seu primeiro trabalho fonográfico. Sem dúvida, as constelações reproduzidas na arte de Bandeirante são prenúncios de bons tempos para o quarteto.
Mariana Pasini
mmp_3m8@hotmail.com